“Eu senti vergonha do meu corpo.”

“Quando eu tinha 5 anos, minhas amigas da escola começaram a me chamar de gordinha. As camisetas da minha mãe já serviam em mim e eu realmente adorava comer. Meus pais me levaram ao médico e compraram até uma balança profissional com a qual verificavam meu peso regularmente. A comida era no fundo o centro de minhas atenções internas e conflitos. Quando eu menstruei pela primeira vez aos 13, fiquei com vergonha de contar pra minha mãe e amigas. Eu mesma lavei minhas calcinhas e colocava chumaços de algodão para conter o sangue, até que minha mãe, óbvio, reparou e veio conversar comigo. Eu sentia muita vergonha de ser gordinha. Não queria ir à praia com minhas amigas magras e seus biquínis lindos. Aos 15 anos já havia feito várias dietas. Não tirava a roupa na frente de ninguém, nem da minha mãe.

Nenhuma roupa me parecia cair bem em mim. Eu literalmente não cabia nas minhas roupas. As dietas eram intercaladas por crises de compulsão quando eu invadia a geladeira a noite e devorava o que estava lá. Eu sempre tive um rosto agradável, mas nunca consegui ser magra.

Na época do meu primeiro namoro eu já tinha 18 anos e ainda era virgem. Simplesmente não concebia ficar nua na frente de alguém. Ao mesmo tempo eu sentia que habitava em mim uma mulher, minha vida sexual era intensa quando estava a sós com minhas fantasias. Talvez por isso, eu comecei a creditar que realmente esse rapaz estava interessado em mim, mesmo eu sendo gordinha e que talvez eu pudesse deixar que ele se aproximasse. Ele foi muito paciente e amigo. Levei  meses para conseguir sair com ele. Fomos ao cinema e depois eu devorei ansiosamente o lanche que comemos na saída. Nesse dia houve o primeiro beijo e foi muito bom.

Namoramos sem fazer sexo por 9 meses, ele respeitava quando não queria que ele me acariciasse, sentia todas as minhas dobras e isso me incomodava. Ele me deixava a vontade e foi conquistando a minha confiança e com o tempo eu fui gostando dele cada vez mais. Sentia tesão por ele, mas era difícil acreditar que ele gostasse de uma mulher gorda como eu. Até que um dia, nós fomos viajar para as montanhas, estava frio e tinha lareira no chalé. Era a comemoração do nosso décimo mês de namoro. Ele ganhou essa estadia do pai que trabalhava com turismo. Minha mãe me deu dinheiro pra emergência e muitos conselhos. Eu queria fazer sexo com ele, mas sentia muita vergonha do meu corpo. Precisava explicar isso pra ele compreender o motivo da minha rejeição, pois era assim que ele começou a sentir.

Eu conversei com ele sobre essa minha dificuldade e ele me ouviu sem me interromper. Ele sabia que seria minha primeira vez. Ficou calado e pensativo. Colocou a música do Pink Floyd, abriu uma garrafa de vinho e serviu pra nós. Eu estava esperando que ele dissesse alguma coisa. Finalmente, ele disse que gostava de mim gordinha e que sentia tesão em mim e que já não aguentava mais esperar para me ter. Que ele estava pronto, que bastava um sinal meu.

Eu tive uma boa experiência com a minha primeira vez. Não conseguir gozar. Acho que estar nua com um pênis dentro de mim era demais. Mas senti muito prazer.

Infelizmente a manutenção desse e dos outros relacionamentos não foram tão bons. Minha vida começou a girar em torno do trabalho. Meus relacionamentos eram conturbados. Me formei  em publicidade. Tive uma filha sozinha e eu fui obrigada a me tratar, tanto da compulsão quanto da autoestima. Minha vida era a minha filha, o trabalho e a terapia.

Com o tempo fui recuperando minha autoestima  e assumi  ficar comigo mesma pelo tempo que levasse eu aprender a me aceitar e a me amar em primeiro lugar.

Atualmente continuo gordinha, mas aprendi a usar roupas que valorizam meu corpo e que vistam bem em mim. Faço academia e tenho uma dieta regular balanceada. Minha filha e eu comemos a mesma coisa. Ela também tem uma tendência a engordar, mas aprendi a lidar com isso diferente de meus pais. Ela pratica natação 5 vezes por semana e tem boa saúde. Trabalho muito e nada falta a minha filha.

E embora esteja satisfeita com minha vida, quero encontrar o homem certo para caminhar do meu lado pela vida a fora. Mas antes quero conhecer melhor a mim mesma e sobre a razão de eu atrair tantos relacionamentos ruins. Quero ter mais intimidade com meu corpo e aprender a viver minha sexualidade plenamente comigo mesma. Me conhecendo melhor, vou ter mais chances de ter um relacionamento que venha a somar no meu processo de aprender a ser Mulher, sem rótulos, sem tabus, sem vergonha. Me aceitando como eu sou e sempre em evolução.”

Relato anônimo, transcrito por Sandra Ebisawa 
 Terapeuta corporal, Doula, Coaching em pompoarismo
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